COMPREENDER O PROBLEMA
A Economia da Atenção e o Extremismo Digital
Vivemos numa era em que as plataformas digitais se tornaram o principal palco do debate público. Concebidas inicialmente para aproximar pessoas e facilitar a troca de ideias, estas redes transformaram-se em arenas onde o conflito, a desinformação e o extremismo prosperam.
Por que razão isto acontece?
As redes sociais não são neutras. Funcionam através de algoritmos desenhados para maximizar o tempo de permanência dos utilizadores na plataforma. E a forma mais eficaz de o conseguir é através de conteúdos que provocam reações emocionais intensas: raiva, medo, indignação, choque.
Vários estudos académicos demonstram que conteúdos que geram emoções negativas têm 2 a 3 vezes mais probabilidade de serem partilhados do que conteúdos neutros ou positivos. Os algoritmos das Redes Sociais detetam este padrão e recompensam-no com maior visibilidade.
O Modelo de Negócio da Polarização
As plataformas lucram com cada segundo de atenção que conseguem captar. Quanto mais tempo permanecemos online, mais anúncios vemos, mais dados geramos. O modelo económico destas empresas não se baseia na qualidade do debate ou na veracidade da informação: baseia-se em métricas de engagement: cliques, partilhas, comentários e tempo de visualização.
O resultado deste foco na atenção? Conteúdos extremistas, provocadores e falsos são sistematicamente privilegiados porque geram mais interação e conservam o utilizador na rede social.
A ESTRATÉGIA DA PROPAGANDA EXTREMISTA
Como Funciona a Máquina de Amplificação
Os partidos populistas compreenderam perfeitamente esta dinâmica. A sua estratégia digital não é acidental: é deliberada, coordenada e altamente eficaz:
1. Provocação Calculada
Publicam conteúdos desenhados especificamente para gerar indignação. Não procuram convencer através de argumentos racionais, mas sim provocar reações emocionais intensas que levem à partilha e ao comentário.
2. Amplificação através do Conflito
Cada comentário crítico, cada partilha indignada, cada resposta emocional contribui para aumentar o alcance da mensagem original. Do ponto de vista algorítmico, não há diferença entre um “like” de apoio e um comentário de repúdio: ambos são sinais de engagement que promovem o conteúdo.
3. Criação de Falsas Maiorias
Através da repetição coordenada das mesmas mensagens em múltiplas contas (muitas delas falsas) e sites, criam a ilusão de que as suas posições são maioritárias. Esta perceção artificial é reforçada quando os seus próprios oponentes amplificam involuntariamente as suas mensagens ao criticá-las, ao republicá-las e a expandir o seu alcance aos seus próprios seguidores dos quais, posteriormente, alguns se irão converter também a estas posições extremistas..
4. Normalização do Extremismo
Ao ocuparem permanentemente o espaço mediático digital – mesmo que através da indignação que provocam até nos seus opositores – estas contas conseguem normalizar posições que seriam impensáveis há poucos anos. O que inicialmente choca torna-se, pela repetição, familiar. A repetição torna-se, assim, um instrumento de conversão.
5. Desvio do Debate Público
Ao monopolizar a atenção com provocações e polémicas fabricadas, desviam a discussão pública dos problemas reais: saúde, educação, habitação, ambiente, desigualdade. O debate democrático é substituído por guerras culturais artificiais.
O Paradoxo do Antifascista Digital
Muitos democratas e moderados, ao tentarem combater estas narrativas, caem numa armadilha: tornam-se amplificadores involuntários da propaganda que pretendem denunciar.
Exemplo prático: Uma página publica uma mensagem racista deliberadamente chocante. Em poucas horas, milhares de cidadãos indignados partilham a publicação com comentários críticos (“Olhem o absurdo!”, “É inadmissível!”, “Partilhem para que todos vejam!”, “Racistas!”).
Resultado: A publicação original atingiu centenas de milhares de pessoas que nunca seguiram esse perfil. O algoritmo interpreta este tsunami de interações como um sinal de “conteúdo relevante” e promove-o ainda mais. A própria conta (seja um perfil falso, um perfil nominal ou um simples bot) ganha novos seguidores: uns por concordância, outros por curiosidade mórbida.
O Populismo venceu. Não porque convenceu através de argumentos, mas porque conseguiu ocupar o espaço digital e transformar a indignação alheia em combustível para a sua máquina de propaganda.
OS CINCO PILARES DO PROBLEMA
1. Os Algoritmos Premiam o Conflito
Os sistemas de recomendação das plataformas não distinguem entre debate saudável e conflito tóxico. Medem apenas intensidade de reação. Um debate respeitoso sobre políticas de habitação gera menos engagement do que uma provocação racista e por isso é menos promovido.
Consequência: O extremismo tem uma vantagem estrutural no ambiente digital. Não por ser mais popular, mas por ser algoritmicamente mais eficaz. Na prática, as Redes Sociais transformam-se numa ferramenta de corrosão e destruição da democracia quando nos prometeram ser apenas um veículo de comunicação e de proximidade entre amigos e familiares.
2. A Indignação é o Combustível da Extrema-Direita
Enquanto os movimentos e os partidos democráticos – de esquerda e de direita – procuram convencer eleitores e apoiantes através de argumentos, propostas e factos concretos e demonstrados, a extrema-direita populista compreendeu que nas redes sociais tem o terreno perfeito para prosperar dado que aqui vence quem provoca reações mais intensas, não quem tem necessariamente a razão – ou até a verdade dos factos – consigo.
A lógica desta atividade é assustadoramente simples:
Provocar > Gerar indignação > Obter comentários e partilhas > Aumentar visibilidade > Atrair novos apoiantes e repetir novamente, caso a caso, polémica a polémica.
Cada ciclo de indignação alimenta o seguinte. É um sistema auto-reforçado que se alimenta da reação dos seus próprios opositores e que é amplificado pelos seguidores mais fanáticos.
3. A Perceção de Maioria é Fabricada
Quando vemos as mesmas mensagens extremistas repetidas milhares de vezes nos nossos feeds, começamos a acreditar – mesmo inconscientemente – que representam uma posição maioritária na sociedade.
A realidade: Na maior parte dos casos, trata-se de uma minoria ruidosa com uma estratégia coordenada de ocupação do espaço digital. Mas a perceção importa tanto quanto a realidade ou ainda mais no que concerne à estratégia digital populista.
Efeito de terceira pessoa: Mesmo que não acreditemos nestas mensagens, preocupamo-nos que outros acreditem. E essa preocupação leva-nos a amplificá-las ainda mais “para alertar as pessoas”, fechando o ciclo vicioso especialmente se no entusiasmo ou revolta dessa reação cometermos o erro de republicar ou comentar a publicação populista original.
4. A Desinformação Fragiliza a Democracia
A propagação sistemática de mentiras, teorias conspirativas e discurso de ódio não visa apenas promover uma determinada força política. Tem um objetivo mais profundo e perigoso: corroer a confiança nas instituições democráticas e a sua estabilidade.
Quando os cidadãos deixam de acreditar em factos verificáveis, quando desconfiam sistematicamente dos media, da ciência, da justiça e das instituições democráticas, a própria possibilidade de debate racional colapsa. E é precisamente nesse ambiente de caos informativo que o autoritarismo e a autocracia (“falsa” ou real) encontram condições para se instalar e começar, depois, a alterar o sistema eleitoral e judicial por forma a se poderem eternizar no poder.
5. As Plataformas Lucram com o Ódio
É preciso ter consciência e divulgar abertamente que as empresas que detêm as redes sociais não são entidades neutras que fornecem um serviço público. São empresas privadas cujo modelo de negócio depende de maximizar o tempo de atenção dos utilizadores e de os manter cativos dentro da sua teia de informações. Como disse uma vez o CEO da Netflix: “O meu primeiro adversário é o sono”.
A consequência perversa: Conteúdos que geram conflito, ódio e polarização são mais lucrativos para as empresas de redes sociais do que conteúdos informativos ou construtivos. As plataformas têm um incentivo económico directo para tolerar (ou promover discretamente) o extremismo. Se não forem obrigadas a agir de outra forma, pelos seus próprios utilizadores ou pelos Legisladores nunca mudarão a sua conduta, especialmente agora que têm o apoio do regime Trump no país onde assentaram as suas bases: os EUA.
Mesmo quando afirmam estar a combater o discurso de ódio, as ações efetivas das empresas de Redes Sociaisi são frequentemente insuficientes, aparentes, tardias ou inconsistentes. A moderação eficaz de conteúdos reduziria o engagement: e, consequentemente, a receita. Daí aliás a queixa que apresentámos à ANACOM e ao Ministério Público https://movimentodemocraciaparticipativa.org/2025/07/09/violacao-sistematica-do-digital-services-act-pela-plataforma-x-antigo-twitter-queixas-a-anacom-e-mp/ em julho e que até hoje (2.11.2025) não teve nem uma resposta automática.
ESTRATÉGIAS DE DEFESA DEMOCRÁTICA DIGITAL
PRINCÍPIO FUNDAMENTAL: Não Alimentar o Sistema que Queremos Combater
A forma mais eficaz de combater a propaganda extremista não é confrontá-la diretamente em cada publicação, mas sim retirar-lhe o oxigénio algorítmico de que depende para sobreviver.
1. SILÊNCIO ESTRATÉGICO
O Poder de Não Reagir
Regra de ouro: Não partilhem, não comentem, não cliquem.
Pode parecer contra-intuitivo, mas em muitos casos, a forma mais eficaz de combater uma provocação é ignorá-la completamente. Sem reações, sem engagement, o algoritmo rapidamente deixa de promover o conteúdo e este morre naturalmente.
Quando aplicar:
- Provocações óbvias desenhadas para gerar indignação
- Declarações escandalosas de figuras que procuram atenção
- Teorias conspirativas absurdas sem fundamento factual ou científico
- Ignorar todos os conteúdos com a única intenção é chocar
Como praticar:
- Respirem fundo antes de reagir emocionalmente (contar 1-2-3-4-5)
- Perguntem-se: “Esta pessoa/publicação quer precisamente que eu reaja?”
- Considerem: “Ao comentar/partilhar, estou a ajudar ou a prejudicar a causa democrática?”
- Lembrem-se: Cada clique é um voto algorítmico
- Apagar logo que se aperceba de que cometeu um erro ao reagir
Exceção importante: Quando o silêncio pode ser interpretado como cumplicidade ou quando há necessidade de denúncia pública, aplique as estratégias seguintes.
2. EXPOSIÇÃO RESPONSÁVEL
Como Denunciar Sem Amplificar
Há situações em que é necessário expor publicamente conteúdos extremistas: para alertar, documentar ou responsabilizar. Mas isso deve ser feito de forma a minimizar a amplificação algorítmica das redes sociais.
Metodologia:
A. Capturas de Ecrã (Screenshots)
- Grave apenas o texto essencial da publicação
- Adicione a palavra “Screenshot” ou a frase “Captura de Écran” para deixar claro que não é um link direto
B. Descrição Contextualizada
Em vez de partilhar o conteúdo original, descreva-o:
- “Uma página associada ao partido Z publicou hoje uma mensagem xenófoba afirmando que…”
- “Circula nas redes uma falsa citação atribuída a [político] alegando que…”
C. Nunca Partilhar Links Diretos
- Não coloquem o URL original
- Não marquem (@) as contas envolvidas
- Não usem botões de partilha que geram tráfego para a fonte
D. Focar na Análise, Não no Escândalo
Quando denunciarem, o objetivo deve ser informar e contextualizar, não chocar:
- Expliquem o contexto político e social
- Desmintam com factos verificáveis
- Indiquem padrões de desinformação
- Ofereçam alternativas construtivas
Exemplo prático:
Errado: “Não acreditem no que o [extremista X] disse! Partilhem para toda a gente ver!” + [link direto]
Correto: “Circula uma alegação falsa sobre [tema]. Os factos são: [1, 2, 3]. Fontes credíveis: [links para jornalismo verificado]. Este tipo de desinformação visa [objetivo]. Mantenhamo-nos informados através de fontes fiáveis!”
3. FERRAMENTAS DAS PLATAFORMAS
Treinar os Algoritmos para nos Protegerem
Cada plataforma oferece mecanismos que permitem aos utilizadores influenciar o que veem. É essencial usar estas ferramentas de forma sistemática e consistente por forma a “educar” os algoritmos a mostrar menos conteúdo extremista.
X / Twitter (“Para você”) (Feed)
“Mostrar menos posts de” ou “Mostrar menos reposts de”
- Sempre que aparecer conteúdo associado a partidos populistas ou propaganda extremista
- Clicar nos três pontos > “Ver menos publicações assim”
- O algoritmo aprende as vossas preferências
“Este Post Não é relevante”
- Para tópicos completos que queremos evitar
- Ajuda a refinar o feed
“Silenciar” vs “Bloquear”
- Silenciar: deixam de ver a conta, mas ela pode interagir convosco
- Bloquear: corte total de interação (recomendado para propaganda coordenada).
Listas e Filtros
- Criem listas de contas credíveis para seguir
- Usem filtros de palavras para bloquear termos associados a propaganda
“Ocultar publicação”
- Remove a publicação específica do vosso feed
- Indica ao algoritmo que não queremos ver conteúdo similar
“Deixar de seguir página”
- Mantêm a amizade/ligação mas deixam de ver as publicações
- Útil para casos de parentes ou conhecidos que partilham propaganda
“Denunciar página”
- Para páginas que violam consistentemente as regras da plataforma
- Selecionar motivo específico: discurso de ódio, desinformação, etc.
Preferências de Feed
- Configurações → Feed de Notícias → Preferências
- Dar prioridade a amigos e páginas de confiança
- Reduzir peso de páginas problemáticas
“Não me interessa”
- Em publicações sugeridas ou Reels
- O algoritmo ajusta rapidamente
“Restringir” contas
- Alternativa ao bloqueio
- A conta não percebe que foi restringida
“Ocultar a tua história de…”
- Controlar quem vê o vosso conteúdo
- Útil para não alimentar debates com provocadores
TikTok
“Não me interessa”
- Pressionar prolongadamente num vídeo
- Altamente eficaz — o algoritmo ajusta rapidamente
“Denunciar”
- Para conteúdos que violam as diretrizes
- O TikTok tem sido relativamente eficaz na moderação
“Bloquear”
- Impede interações futuras
YouTube
“Não recomendar canal”
- Nos três pontos ao lado de vídeos sugeridos
- Remove completamente o canal das recomendações
“Não me interessa”
- Para vídeos específicos
Gestão do Histórico
- Limpar regularmente o histórico
- Pausar histórico de visualizações para um feed mais limpo
4. BLOQUEIO ESTRATÉGICO
Cortar Vias de Difusão
O bloqueio não é censura: é autodefesa digital e higiene informacional.
Por que razão bloquear é eficaz:
- Proteção pessoal: Reduz a exposição a conteúdo tóxico que pode afetar a saúde mental
- Efeito rede: Diminui a probabilidade de os vossos contactos serem expostos através de partilhas indiretas
- Sinal para os algoritmos: Indica que este tipo de conteúdo não é valorizado
- Desmonetização indireta: Reduz o alcance e, consequentemente, o valor publicitário das contas extremistas
Quem bloquear:
- Contas oficiais e não oficiais dos partidos populistas
- Figuras públicas que fazem discurso de ódio sistemático
- Páginas de “humor” que normalizam racismo, xenofobia ou misoginia
- Contas que disseminam desinformação comprovada repetidamente
- Bots e contas falsas (perfis recentes, sem foto, atividade anómala)
Como identificar contas problemáticas:
- Linguagem constantemente agressiva ou desumanizadora
- Partilha sistemática de teorias conspirativas
- Publicações que visam apenas provocar e dividir
- Histórico de violações das regras das plataformas
- Padrões de comportamento coordenado (várias contas com mensagens idênticas)
Bloqueio coletivo:
Considerem criar ou participar em listas partilhadas de contas a bloquear. Várias comunidades online mantêm estas listas atualizadas, facilitando o bloqueio em massa de redes de propaganda.
5. DENÚNCIA FORMAL
Nas Plataformas
Todas as redes sociais têm mecanismos de denúncia. Usá-los consistentemente é fundamental para pressionar as empresas a agirem.
O que denunciar:
- Discurso de ódio: Ataques a grupos com base em raça, etnia, religião, género, orientação sexual
- Assédio e bullying: Ataques pessoais sistemáticos
- Desinformação: Falsidades comprováveis sobre saúde, eleições, eventos
- Incitação à violência: Mensagens que encorajam agressões físicas
- Conteúdo ilegal: Apologia de crimes, ameaças diretas
Como fazer denúncias eficazes:
- Sejam específicos no motivo
- Forneçam contexto quando possível
- Façam denúncias individuais (não em grupo coordenado, pode ser interpretado como spam)
- Documentem (screenshot da publicação + screenshot da denúncia)
- Sejam persistentes — uma denúncia pode ser ignorada, dez não
Junto de Entidades Oficiais
Para casos graves, não se limitem às plataformas. Portugal tem entidades específicas:
ANACOM – Autoridade Nacional de Comunicações
Função: Supervisão das plataformas digitais ao abrigo do Digital Services Act (DSA); fiscalização de práticas ilícitas em serviços digitais; atuação como ponto de contacto nacional para denúncias relacionadas com conteúdos ilegais, falhas de moderação e incumprimento de deveres das plataformas.
Como denunciar: www.anacom.pt (secção “DSA – Denúncias” ou formulário próprio)
Quando usar:
- Falha de remoção de conteúdos ilegais após denúncia à plataforma
- Incumprimento sistemático dos mecanismos de moderação previstos no DSA
- Risco sistémico causado pela plataforma (discurso de ódio, desinformação massiva, incitamento à violência)
- Ausência de resposta da plataforma às obrigações legais de reporte ou transparência
AIMA (assumiu as funções da CICDR: Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial)
- Função: Combate à discriminação racial e étnica
- Como denunciar: https://aima.gov.pt/pt
- Quando usar: Discurso racista, xenófobo, discriminação
ERC: Entidade Reguladora para a Comunicação Social
- Função: Supervisão dos meios de comunicação
- Como denunciar: www.erc.pt
- Quando usar: Conteúdos em meios com registo, desinformação sistemática
Ministério Público
- Função: Investigação criminal
- Como denunciar: Apresentação de queixa em qualquer posto da PSP/GNR ou tribunal
- Quando usar:
- Crime de discriminação racial (art. 240º Código Penal)
- Incitamento ao ódio ou à violência (art. 182º-A)
- Injúria agravada
- Ameaças
Provedoria de Justiça
- Função: Defesa dos direitos dos cidadãos
- Como denunciar: www.provedor-jus.pt
- Quando usar: Omissão de entidades públicas
Documentação essencial para denúncias:
- Capturas de ecrã com data e hora visíveis
- URL das publicações
- Contexto da situação
- Histórico de comportamento (se aplicável)
- Provas de tentativas de resolução (denúncia à plataforma, por exemplo)
6. AMPLIFICAR VOZES DEMOCRÁTICAS
Não Basta Combater o Mal: É Preciso Promover o Bem
O problema da economia da atenção: Se gastarmos toda a nossa energia a combater propaganda extremista, estaremos sempre a reagir, nunca a construir. É preciso inverter a lógica.
Seguir e Apoiar Jornalismo Independente
Meios credíveis em Portugal:
- Fact-checking: Polígrafo, Observador (secção fact-check), Lupa
- Jornalismo de investigação: Público, Expresso, Jornal de Notícias
- Media independentes: Divergente, Fumaça, Setenta e Quatro
- Jornalismo local: jornais regionais que cobrem comunidades
Como apoiar:
- Assinem ou contribuam financeiramente
- Partilhem artigos bem fundamentados
- Comentem positivamente (os algoritmos também premiam engagement em conteúdo credível)
- Recomendem a amigos e familiares
Amplificar Iniciativas Cívicas
Organizações que trabalham democracia e direitos:
- SOS Racismo
- ILGA Portugal
- Amnistia Internacional Portugal
- Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres
- Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV)
- Organizações de acolhimento e integração de migrantes
Como ajudar:
- Sigam nas redes sociais
- Partilhem as suas campanhas
- Participem em iniciativas
- Doem se possível
Criar Conteúdo Positivo
Em vez de apenas criticar o que está mal, criem e partilhem conteúdo construtivo:
- Educação democrática: Explicações sobre como funciona a democracia, direitos fundamentais, história
- Histórias humanas: Perfis de pessoas que fazem diferença nas comunidades
- Soluções: Projetos, iniciativas, políticas que funcionam
- Arte e cultura que promovam valores democráticos
- Ciência e fact-checking apresentados de forma acessível
Construir Comunidades Online Saudáveis
- Criem grupos focados em temas construtivos
- Moderem ativamente para manter o nível do debate
- Estabeleçam regras claras de convivência
- Valorizem contribuições construtivas
- Não tolerem discurso de ódio, mas distingui-lo de desacordo legítimo
7. LITERACIA DIGITAL E PENSAMENTO CRÍTICO
Educar para a Resistência
A melhor defesa contra a desinformação é uma população com capacidade crítica desenvolvida.
Ferramentas de Verificação
Antes de partilhar qualquer informação, perguntem:
- Fonte: Quem publicou? É credível? Tem historial de rigor?
- Data: Quando foi publicado? É atual ou está a ser recontextualizado?
- Evidências: Há fontes citadas? São verificáveis?
- Emoção: A forma como está escrito visa informar ou provocar reação emocional?
- Confirmação: Outros meios credíveis reportam o mesmo?
Recursos úteis:
Sites de fact-checking:
- https://poligrafo.sapo.pt/
- https://observador.pt/seccao/observador/fact-check/
- https://factual.afp.com/
- https://euvsdisinfo.eu/ (desinformação sobre UE)
Verificação de imagens:
- Google Reverse Image Search: https://images.google.com/
- TinEye: https://tineye.com/
- InVID (para vídeos): https://www.invid-project.eu/
Análise de sites:
- Whois (quem é dono do domínio): https://who.is/
- MediaBiasFactCheck (credibilidade de fontes): https://mediabiasfactcheck.com/
Sinais de Alerta de Desinformação
Títulos em MAIÚSCULAS ou com MUITAS exclamações!!!
Apelos emocionais intensos sem factos
Teorias conspirativas complexas sem provas “Os media mainstream não querem que saibas”
Sites com nomes similares a meios credíveis mas com pequenas diferenças de nome ou grafismo
Ausência total de fontes ou fontes não verificáveis
Imagens sem contexto ou descontextualizadas (p. Ex. de outro país)
Pedidos urgentes de partilha “antes que apaguem”
Generalização extremas (“TODOS os [grupo]…”)
Informação “exclusiva” que ninguém mais tem
Ensinar às Gerações Mais Jovens
Se têm filhos, sobrinhos, educandos:
- Conversem sobre o que vêem online: Não proíbam, eduquem
- Ensinem a questionar: “Como sabemos que isto é verdade?”
- Mostrem exemplos: Analisem juntos casos de desinformação
- Valorizem o pensamento crítico: Não há perguntas estúpidas
- Sejam modelo: As crianças aprendem vendo como os adultos usam as redes
8. PSICOLOGIA DA PROPAGANDA
Compreender para Resistir
Conhecer as técnicas de manipulação torna-nos mais resistentes a elas.
Técnicas Comuns de Propaganda Extremista
1. Inimigo Comum
Criar um “outro” a quem culpar de todos os problemas: imigrantes, “elites”, “sistema”, etc.
Como resistir: Questionar generalizações. Procurar causas complexas, não bodes expiatórios simples.
2. Vitimização
Apresentar-se como perseguido pelo “sistema” ou “censura” para ganhar simpatia.
Como resistir: Distinguir crítica legítima de estratégia de vitimização. Questionar se há realmente perseguição ou apenas responsabilização.
3. Falsa Equivalência
“Ambos os lados são iguais” para normalizar posições extremas.
Como resistir: Recusar a falsa simetria. Nem todas as opiniões merecem igual peso, especialmente as que negam dignidade humana.
4. Apelo à Autenticidade
“Dizem o que pensam”, “não têm medo de falar verdades” — usar incorreção política como virtude.
Como resistir: Distinguir honestidade de crueldade. A liberdade de expressão não obriga ninguém a ser ouvido ou respeitado.
5. Teorias Conspirativas
Explicações simples para problemas complexos, sempre envolvendo “forças ocultas”.
Como resistir: Aplicar a Navalha de Occam — explicações simples são normalmente mais prováveis que conspirações elaboradas. Procurar evidências, não padrões imaginados.
6. Repetição e Saturação
Repetir a mesma mensagem centenas de vezes até se tornar “senso comum”.
Como resistir: Reconhecer que frequência não é validade. Uma mentira repetida mil vezes continua a ser mentira.
7. Exploração de Ansiedades Reais
Usar preocupações legítimas (habitação, saúde, segurança) para promover soluções extremistas.
Como resistir: Reconhecer que os problemas são reais, mas as soluções propostas são falsas ou perigosas.
9. AUTOCUIDADO DIGITAL
Proteger a Nossa Saúde Mental
O combate à propaganda é desgastante. É fundamental cuidar de nós próprios.
Reconhecer Sinais de Exaustão Digital
- Ansiedade ao abrir as redes sociais
- Raiva constante ao ler notícias
- Sensação de impotência ou desespero
- Dificuldade em concentrar-se noutras atividades
- Perturbação do sono relacionada com conteúdo online
- Isolamento de pessoas próximas devido a conflitos online
Práticas de Proteção
Limites de Tempo
- Definir horários para redes sociais (não ao acordar/deitar)
- Usar aplicações que limitam tempo de uso
- Dias de “detox digital” regular
Curadoria Ativa
- Seguir contas que inspiram, educam, divertem saudavelmente
- Deixar de seguir contas que sistematicamente perturbam
- Criar listas separadas para diferentes tipos de conteúdo
Espaços Seguros
- Manter grupos/comunidades online positivos
- Cultivar relações digitais saudáveis
- Participar em espaços de interesse genuíno (hobbies, cultura)
Desconexão Regular
- Atividades offline: desporto, natureza, leitura, convívio presencial
- Reconhecer que não temos de estar constantemente informados
- A democracia não depende de estarmos online 24/7
Quando Procurar Ajuda
Se a exposição a conteúdo extremista está a afetar seriamente a saúde mental:
- Conversem com amigos ou familiares de confiança
- Considerem apoio psicológico profissional
- Em Portugal: SNS24 (808 24 24 24), Linha de Apoio ao Psicológico (213 58 45 45)
10. AÇÃO COLETIVA E MOBILIZAÇÃO
A Força da Comunidade
Individualmente fazemos diferença. Coletivamente, somos imparáveis.
Organização Local
- Criem grupos locais de literacia digital
- Organizem workshops sobre fact-checking
- Promovam sessões de educação para idosos (população mais vulnerável a desinformação)
- Estabeleçam redes de vigilância cívica
Pressão sobre Plataformas
- Campanhas coordenadas exigindo melhor moderação
- Boicotes a anunciantes em plataformas que toleram ódio
- Petições por transparência algorítmica
- Apoio a legislação que responsabilize plataformas (DSA europeu)
Participação Democrática Offline
As redes são apenas uma parte da democracia:
- Votem em todas as eleições
- Participem em assembleias e audiências públicas
- Juntem-se a partidos, movimentos, associações
- Envolvam-se nas comunidades locais
11. MEDIR O IMPACTO
Como Saber se Estamos a Fazer Diferença
Indicadores Individuais:
- Redução de conteúdo extremista no vosso feed
- Menos tempo gasto em conflitos digitais infrutíferos
- Mais conteúdo construtivo que partilham
- Melhoria da vossa saúde mental digital
Indicadores Coletivos:
- Redução de alcance de contas extremistas
- Aumento de denúncias eficazes
- Crescimento de comunidades democráticas online
- Maior literacia digital na população
12. VISÃO DE FUTURO
Que Internet Queremos?
Esta luta não é apenas defensiva. É também sobre construir alternativas.
Imaginemos redes sociais onde:
- Os algoritmos promovem diálogo construtivo, não conflito
- A moderação é
transparente e consistente
- Os utilizadores têm controlo real sobre o que veem
- A verificação de factos é integrada nativamente
- A diversidade de vozes é genuinamente valorizada
- O modelo de negócio não depende de polarização
Como chegaremos lá?
Advocacy Tecnológico
- Apoiar desenvolvimento de plataformas alternativas (Mastodon, Bluesky)
- Exigir interoperabilidade (poder mudar de plataforma sem perder contactos)
- Pressionar por algoritmos auditáveis e transparentes
- Defender regulamentação que proteja utilizadores sem censurar
Educação Sistémica
- Literacia digital obrigatória nas escolas
- Formação contínua para adultos
- Campanhas de sensibilização pública
- Recursos acessíveis em todas as línguas e formatos
Cultura Digital Saudável
- Normalizar pausas e desconexão
- Valorizar qualidade sobre quantidade de interações
- Celebrar debate respeitoso e mudança de opinião
- Rejeitar cultura de cancelamento e tribunal público
13. GUIA RÁPIDO DE AÇÃO
CHECKLIST DIÁRIA
Ao acordar:
- [ ] Não abrir redes sociais imediatamente
- [ ] Começar o dia com fontes de informação credíveis
Durante o dia:
- [ ] Antes de partilhar qualquer conteúdo, verificar fonte
- [ ] Usar “Ver menos” / “Não me interessa” em conteúdo extremista
- [ ] Partilhar pelo menos um conteúdo construtivo
- [ ] Se vir desinformação, aplicar estratégia de exposição responsável
Ao deitar:
- [ ] Desligar notificações de redes sociais
- [ ] Fazer balanço: contribuí para melhorar ou piorar o debate público?
CHECKLIST SEMANAL
- [ ] Rever contas que sigo – alguma é fonte constante de negatividade?
- [ ] Bloquear pelo menos 3-5 contas de propaganda coordenada
- [ ] Contribuir para pelo menos uma iniciativa cívica (partilha, comentário positivo, donativo)
- [ ] Verificar definições de privacidade e algoritmo nas plataformas
CHECKLIST MENSAL
- [ ] Avaliar tempo gasto em redes sociais – está saudável?
- [ ] Fazer denúncia formal de casos graves acumulados
- [ ] Participar em atividade cívica offline
- [ ] Ensinar a pelo menos uma pessoa técnicas de verificação de factos
14. CHAMADA À AÇÃO: OS PRÓXIMOS PASSOS
O Que Fazer AGORA
- PARTILHEM este manual
- COMPROMETAM-SE com pelo menos 3 ações desta lista:
- Bloquear 10 contas de propaganda
- Seguir 5 fontes de informação credíveis
- Ensinar estas técnicas a 3 pessoas
- Fazer 1 denúncia formal por mês
- Reduzir tempo em redes sociais em 30%
- CRIEM ACCOUNTABILITY:
- Formem grupos de apoio mútuo
- Partilhem progressos (sem exibicionismo)
- Ajudem-se mutuamente a manter disciplina
- SEJAM PACIENTES:
- Mudanças sistémicas levam tempo
- Cada ação pequena conta
- Não desanimem com retrocessos pontuais
15. CONVERSAS DIFÍCEIS
Como Falar com Pessoas Próximas que Caíram na Propaganda
Um dos maiores desafios é quando familiares, amigos ou colegas começam a partilhar propaganda extremista. Não há fórmulas mágicas, mas há abordagens mais eficazes:
O Que NÃO Fazer
❌ Atacar a pessoa ou chamar nomes (“és fascista”, “és ignorante”) ❌ Bombardear com factos em tom condescendente ❌ Cortar relações imediatamente ❌ Discutir publicamente nas redes (humilha e radicaliza) ❌ Assumir que estão perdidos para sempre
O Que Fazer
✅ Conversem em privado e presencialmente sempre que possível
✅ Comecem por compreender, não confrontar:
- “Reparei que tens partilhado conteúdo do [fonte]. O que é que te atrai nessa perspetiva?”
- “Sentes que há problemas que não estão a ser resolvidos?”
✅ Validem preocupações legítimas:
- “Compreendo a tua preocupação com [habitação/saúde/segurança]. Também me preocupa.”
- “É verdade que [problema real]. Mas será que [solução extremista] realmente resolve?”
✅ Façam perguntas socráticas, não afirmações:
- “Como é que sabemos que essa informação é verdadeira?”
- “Quem beneficia com esta narrativa?”
- “Há exemplos históricos de soluções semelhantes? Resultaram?”
✅ Partilhem histórias pessoais, não estatísticas:
- “Conheces o [nome], ele é imigrante e…”
- “A minha experiência com [tema] foi diferente…”
✅ Plantem sementes de dúvida suavemente:
- “Vi um fact-check sobre isso que dizia [X]. Queres que te envie?”
- “Essa informação contradiz [fonte credível]. Fico confuso.”
✅ Mantenham a porta aberta:
- “Mesmo que discordemos, valorizo a nossa relação.”
- “Se mudares de ideias, estarei aqui.”
Quando Desistir
Algumas pessoas não estão prontas para mudar. Sinais de que é melhor proteger-se:
- Agressividade persistente
- Recusa total de considerar outras perspetivas
- Desumanização de grupos inteiros
- Impacto grave na vossa saúde mental
Nestes casos: Estabeleçam limites claros (“Não vou discutir isto contigo”), reduzam contacto se necessário, mas não fechem a porta permanentemente. Pessoas mudam, às vezes anos depois.
16. MENSAGEM FINAL
A democracia não é um dado adquirido. É uma prática diária.
Cada vez que recusa partilhar uma provocação, está a defender a democracia.
Cada vez que verifica um facto antes de acreditar, está a defender a democracia.
Cada vez que bloqueia propaganda em vez de a amplificar, está a defender a democracia.
Cada vez que ensina alguém a pensar criticamente, está a defender a democracia.
O fascismo do século XXI não virá com botas e uniformes. Virá com memes, algoritmos e clicks.
A resistência também será digital. E começa agora. Consigo.

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